quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A justiça vista através de um conto de fadas

Eu tenho me preocupado bastante com a "demonização" ou "satanização" que as pessoas, ou a sociedade de um mode geral, tem feito com relação a outras pessoas. Uma das coisas que mais me deixa preocupado é a questão de justiça, até onde ela é justiça e a partir de quando ela deixa de ser, devido ao seu rigor, para se transformar em vingança social. Eu me refiro especificamente ao caso da garota que ofendeu o goleiro do Santos, Aranha, em jogo pela Copa do Brasil, dia 30 de agosto de 2014, na Arena do Grêmio. Patrícia Moreira gritou "macaco" para o goleiro e se constituiu em um ícone contra o racismo. Todas as redes sociais e a imprensa veicularam exaustivamente a sua imagem e a tornaram o "demônio" da vez. Se julgada e condenada por racismo, pode pegar cadeia. É um crime inafiançável. No entanto, a sua atitude pode ser enquadrada como injúria racial. De qualquer forma, por uma atitude muito infeliz, pois ela afirmou que não tinha a intenção de agir de forma racista, a garota foi demonizada e hostilizada como se ela representasse todo o mal gerado pelo racismo no mundo todo. O Grêmio foi duramente punido e excluído da competição pelo STJD, uma decisão que pode ter sido exagerada, visto o clube ter tomado atitudes imediatas para diminuir a repercussão. Independente disso, o clube pagou muito caro pela atitude dessa jovem e de outros que fizeram o mesmo. Pois, eu lembrei de um conto dos irmãos Grimm que me faz refletir a questão da justiça. O texto vai abaixo.



O CÃO E O PARDAL

 Era uma vez um cão de pastor que não tinha um bom dono e, muito ao contrário, um dono que o fazia passar fome. E, como não aguentava mais ficar com ele, o cão teve de fugir, embora muito triste.
No caminho, encontrou um pardal, que lhe disse:
— Por que estás tão triste, amigo cão?
— Estou com fome e não tenho coisa alguma para comer — respondeu o cão.
— Vem à cidade comigo, meu amigo, e matarei a tua fome — disse o pardal.
O cão prontamente aceitou o convite e, quando chegaram à cidade, dirigiram-se a um açougue, onde o pardal disse ao cão:
— Espera aqui, que eu vou ver se consigo arranjar um pedaço de carne para comeres.
E, assim tendo dito, voou até o balcão, olhou para todos os lados para ver se estava sendo observado, e pegou com o bico um pedaço de carne e levou-o para o cão, que o devorou vorazmente.
— Agora — disse o pardal — vamos a outro açougue, e eu te arranjarei mais um pedaço de carne.
Foram. E, quando o cão havia comido o segundo pedaço de carne, o pardal perguntou-lhe:
— Já comeu suficientemente, meu caro amigo?
— Sim, já comi bastante carne, mas ainda não comi pão — foi a resposta.
— Irás comer pão — prometeu o pardal. — Vem comigo.
Levou-o, então, a uma padaria e bicou dois pãezinhos até jogá-los no chão, onde cachorro os abocanhou. De lá, o levou a outra padaria, pois o cão não estava achando ainda que comera bastante.
— E agora? perguntou o pardal, depois de servir o pão da segunda padaria. — Já se alimentou suficientemente?
— Já, sim — respondeu o cão. — Acho que poderíamos agora é dar um passeio fora da cidade.
Os dois saíram para o campo, seguiram pela estrada real. Estava, porém, fazendo bastante calor e não tinham andado muito tempo quando o cão anunciou:
— Já estou bem cansado e gostaria de dormir.
— Pois então dorme — disse o pardal. — Enquanto isso, vou ficar por aí, pousado em um galho.
O cão deitou na estrada e caiu logo no sono. E, enquanto dormia lá a sono solto, veio pela estrada uma carroça, puxada por três cavalos e carregando dois barris de vinho. O pardal viu a carroça avançar na direção de seu amigo e gritou para o carroceiro:
— Não faças isso, carroceiro, senão eu te reduzo à miséria!
— Deixa de tolice! — resmungou o carroceiro.
E, chicoteando os cavalos, passou com a carroça por cima do cachorro, matando-o instantaneamente.
E o pardal gritou então:
— Mataste meu grande amigo e isso te custará tua carroça e teus cavalos!
— Pára de falar asneiras! — retrucou o carroceiro. — Tem mesmo graça me ameaçares dessa maneira!
E seguiu adiante.
O pardal, porém, estava realmente disposto a cumprir sua ameaça. Pousou na carroça, sem que o carroceiro visse, e tanto bicou o tampo de um dos barris, que o tampo acabou saindo e o vinho escorrendo.
A princípio, o carroceiro nada notou, mas, afinal, olhando para trás, notou que estava escorrendo vinho da carroça, e, parou para ver o que estava acontecendo. Viu, então, que um dos barris de vinho já se achava completamente vazio.
— Desgraçado que sou! — exclamou, pondo as mãos na cabeça.
— Ainda não és bastante desgraçado! — gritou o pardal.
E, quando o carroceiro prosseguiu a viagem, voou até a cabeça de um dos cavalos e arrancou-lhe os olhos com bicadas, o carroceiro deu-lhe uma chicotada, com toda a força, mas não o alcançou e o pardal acabou matando o cavalo, com bicadas na cabeça.
— Desgraçado que sou! — exclamou o carroceiro.
— Ainda não és bastante desgraçado] — gritou o pardal.
E, quando o carroceiro tocou a carroça, só com dois cavalos, o pardal pousou na carroça e arrancou o tampo do segundo barril, e todo o vinho se perdeu.
Ao ver o que acontecera, o carroceiro pela terceira vez exclamou:
— Desgraçado que sou!
E o pardal gritou de seu lado:
— Ainda não és bastante desgraçado!
E, pousando na cabeça do segundo cavalo, arrancou-lhe os olhos.
Furioso, o carroceiro agarrou um machado e levantou-o para matar o pardal, mas o pássaro voou, e a machadada atingiu o cavalo, que caiu morto.
— Desgraçado que sou! — exclamou o carroceiro.
— Ainda não és bastante desgraçado! — reiterou o pardal.
E pousou na cabeça do terceiro cavalo e furou os seus olhos. Furioso, o carroceiro tentou matar o pássaro, mas, como da outra vez, acabou foi matando o seu terceiro e último cavalo.
— Desgraçado que sou! — exclamou.
— Ainda não és bastante desgraçado! — exclamou o pardal. — Agora vou tornar-te desgraçado em teu lar!
E voou para longe.
Deixando a carroça abandonada, furioso e desalentado, o carroceiro voltou para casa.
— Quanta desgraça aconteceu comigo! — queixou-se à mulher. — Perdi todo o vinho, todos os três cavalos estão mortos!
— E aqui, meu marido? — replicou a esposa. — Não imaginas o que um maldito pássaro fez nesta casa! Reuniu todos os pássaros do mundo e estão devorando todo o trigo que guardamos!
Realmente, como o carroceiro viu depois, milhares e milhares de pássaros se encontravam no celeiro devorando todo o trigo que tinham armazenado, e o pardal pousado no meio deles.
— Desgraçado que sou! — exclamou o carroceiro.
— Ainda não és bastante desgraçado! — gritou o pardal. — Vai custar também tua vida, carroceiro!
E voou para fora da casa.
Profundamente abatido, com a perda de todos os seus bens, o carroceiro foi sentar-se, cabisbaixo, junto do fogão. Mas o pardal não lhe deu descanso: apareceu voando diante da janela e gritou-lhe:
— Carroceiro, o que fizeste custará tua vida!
Furioso, o carroceiro agarrou um machado e atirou no pardal, mas o pássaro não foi atingido: a janela é que ficou destruída.
O pardal, então, entrou voando dentro da casa e foi pousar no fogão, gritando:
— Carroceiro, o que fizeste custará tua vida!
Louco de raiva, o carroceiro desfechou machadadas contra o pássaro, que o desafiava, voando de um para outro ponto, jamais alcançado e sempre desafiando. As machadadas atingiam as mesas, os bancos, o espelho e as paredes, espalhando a destruição por toda a parte, mas deixando o pardal absolutamente incólume.
O homem, todavia, não desistiu, e afinal conseguiu agarrar o pássaro.
— Vou matá-lo — disse a sua mulher.
— Deixa por minha conta — replicou o carroceiro. — Ele vai ter uma morte bem dolorosa, bem cruel. Deixa por minha conta. Sua morte vai ser lenta e terrível: a morte por asfixia.
Assim dizendo, engoliu o pardal. O pássaro, contudo, começou a voar de um lado para o outro dentro do corpo do homem, até chegar à boca. Ali, pôs a cabeça para fora e gritou bem alto:
— Carroceiro, o que fizeste custará tua vida!
O carroceiro entregou o machado à sua mulher e ordenou:
— Mata este maldito pássaro que está em minha boca.

A mulher obedeceu, mas errou o golpe. Em vez de matar o pardal, atingiu, bem no cocuruto, o próprio marido, que caiu, morto, enquanto o pardal, muito à vontade, batia as asas e fugia para bem longe.

2 comentários:

  1. Sensacional o texto. Não conhecia. Bem de acordo com o momento que estamos vivendo.

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  2. Quem sou eu para dizer que não é um Conto de Fadas, e sim de horror!
    Por favor, não conte para as crianças!

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