sábado, 20 de outubro de 2012

A Representação da Brasilidade


As questões que envolvem a representação da brasilidade muitas vezes se confundem e se misturam nas mais diversas áreas. Uma das questões que ficam sobrevoando as mentes é, inicialmente, o próprio conceito de cultura. A partir disso, o que estaria incluído nesse conceito? Que tipos de realizações (culturais?) fazem parte?
Eu parto da análise de um programa de televisão que na sua primeira temporada se constitui em estrondoso sucesso: The Voice Brasil. O programa tem um diferencial em relação a outros programas do mesmo tipo. Quatro cantores de renome nacional, nomeados no programa de técnicos, e de quatro gêneros diferentes ficam sentados em cadeiras e de costas para os candidatos que irão cantar músicas escolhidas por estes, e desta forma serem o mais isento possível na escolha. Quando um destes quatro cantores gostarem do candidato eles apertam um botão e a cadeira se vira para o candidato, num gesto de aprovação de sua performance. Se um dos quatro cantores se vira, o candidato aprovado o pega para “padrinho”; se dois ou todos se virarem, é o candidato que escolhe quem ele quer para padrinho.
A proposta do programa é encontrar uma sonoridade vocal diferente, nova, e que traga uma contribuição ao cenário musical brasileiro. Em nenhum momento se falou em “brasilidade” como objetivo ou como proposta para a participação dos candidatos. Tanto é verdade, que alguns candidatos aprovados se apresentaram cantando músicas em inglês. Tampouco o gênero foi importante ou fundamental. Porém, a partir daqui começo a ver o que acontece no programa.
Os candidatos eram livres para escolher a música que iriam interpretar. Alguns escolheram um estilo mais pop, ou rock. Outros preferiram MPB, samba, sertanejo ou até sucessos internacionais. Em um dos programas, mais especificamente no dia 7 de outubro de 2012, um candidato fez uma versão da música “Garota de Ipanema” e, apesar de sua ela voz e de uma interpretação ótima, nenhum dos quatro técnicos virou-se, e assim o candidato não foi aprovado. A justificativa partiu da cantora Cláudia Leite, dizendo em outras palavras que a música é um símbolo da música popular brasileira e que não deveria ser modificada. Lulu Santos por sua vez, aprovado por Carlinhos Brown, diz que a música é um símbolo da “brasilidade”.
Sobre o aspecto de definição, “brasilidade” é uma palavra com pouco sentido a partir do nome do programa que este em inglês. Por outro lado, se o programa é de inovação então como não aceitar a inovação de uma música tão conhecida, mesmo sendo um “patrimônio musical” do Brasil?
Há outra questão: se música é uma forma de representação da identidade brasileira, que tipo de música deve ser escolhida? O que a faz ser a representante dessa brasilidade? Qual o critério de escolha e por quem é feita?
Sabidamente, o autor carioca, Tom Jobim, compôs a música inspirado nas belezas naturais de sua cidade, também conhecida como Cidade Maravilhosa, e nas belezas da mulher local. O estilo musical, a bossa nova, inventada no Rio de Janeiro por um grupo de artistas em início de carreira, traduz um momento de mudanças no país e de um estilo de vida que se apresentava e queria ser considerado como uma forma de representação nacional a partir do local.
Sendo o Rio de Janeiro a capital do Império por muito tempo, e de onde saiu a principal emissora de televisão do país, seria normal que esta se impusesse “naturalmente” como a capital nacional cultural brasileira. O próprio samba, considerado um estilo musical tipicamente brasileiro, foi criado no Rio de Janeiro e se espalhou por todo o Brasil, sendo mais difundido e popular em alguns estados do que em outros, convivendo pacificamente com outras formas culturais locais. Um pouco distante desse enfoque, o frevo é considerado como patrimônio cultural nacional. Sequer o samba tem esse privilégio.
De qualquer forma, e voltando ao assunto “brasilidade”, parece que ao pegar uma música que representa, segundo os técnicos do programa The Voice Brasil, a brasilidade e, sendo esta uma criação de um estado, e mais especificamente de uma cidade, que dirige e controla a cultura nacional a partir de seu local de origem, coloca em discussão não o sentido de “brasilidade”, mas a autoridade de dizer o que é e o que não é representativo da “brasilidade”.
Não quero passar a ideia de que sou um bairrista. Tampouco quero dizer que as coisas do estado em que eu moro, o Rio Grande do Sul, são melhores do que de outros estados. Até por que, eu sou um dos coordenadores de um festival de contadores de histórias e a nossa grande preocupação, como coordenadores, é valorizar a nossa diversidade cultural e linguística. Portanto, tanto aqui como em todos os estados da federação há representações da “brasilidade” que devem ser levada em conta e, desta forma, cada uma ser vista como integrante dessa riqueza cultural que o Brasil possui. E não apenas uma música que fala especificamente das coisas de um bairro da cidade do Rio de Janeiro.